O Jeito Mineiro de Ser e de Aprender
Você duvida das qualificações mineiras para esta posição? Será que isso é vantagem ou desvantagem? Veja que ladino pode ser uma coisa ou outra e ser primeiro lugar nas praças de teste, o que será quisso represeta sô?
“O mistério da minha terra, desafiando-me como a esfinge com o seu enigma: decifra-me, ou devoro-te. Prefiro ser devorado.”
Fernando Sabino

Na crônica Minas Enigma da qual a epígrafe acima foi extraída está escrito sobre nós mineiros:
Na crônica Minas Enigma da qual a epígrafe acima foi extraída está escrito sobre nós mineiros:
Um Estado de nariz imenso, um estado de espírito: um jeito de ser. Manhoso, ladino, cauteloso, desconfiado — prudência e capitalização.
Dos grifos acima, meus, o mais enaltecedor é o primeiro. Ladino significa intelectualmente fino, astuto, finório, manhoso. É uma dádiva ser mineiro!
Mas, mineiramente falando, pera aí sô. Ladino pode ser também ardiloso que significa astucioso, enganador, velhaco. Isso nóis num somo não! Diria meu avô.
Outro orgulho mineiro é Belo Horizonte figurar na lista como a primeira cidade de testes de produtos do país. Ou seja, entre as praças de testes estamos em primeiro lugar! Praça de testes são cidades ou regiões escolhidas pelas agências de marketing ou institutos de pesquisa para avaliar a receptividade de um produto, serviço ou ideia.
Decifrar a esfinge mineira é coisa difícil, quase impossível. Mas que somos exigentes, isso somos. Na área de treinamento os mineiros deixam de ser vexados e perguntam muito. Principalmente se o curso for em São Paulo ou no estrangeiro. Afinal de contas, paga-se pelo aprendizado e não pelo tempo que se passa com o professor. Perguntar num ofende. Ofende?
Mas fico bistuntando sobre esse negócio de ser primeiro em praça de teste e encontro uma encruzilhada bem parecida com ser ladino. O gaio bom da encruzilhada é que isso significa a confirmação de todos os adjetivos benéficos sobre nós, como astúcia, elegância e prudência. Mas doutro lado vem um monte de trem nada bão, na verdade assustador. Ser desconfiado pode ser um retrocesso, pois esse negócio de confiar desconfiando pode prejudicar muito nossos negócios e até mesmo nossos relacionamentos.
O mineiro tem autoestima, ou desconfia do espelho? Se o mineiro faz tão bem o que diz fazer, será porque mineiro desconfia até de mineiro? Aí entra aquele troço de velhaco, de enganador. Será que meu avô tinha razão?
Não sei, mas há também a fama de nossa hospitalidade. Mineiro sabe receber bem. Mas fico olhando como os mineiros recebem os próprios mineiros e comparo isso ao jeito mineiro de receber estrangeiros, sejam de outros estados e, claro, principalmente do estrangeiro mesmo. O tratamento é diferenciado, chega a ser subserviente. Sei não sô, será que num tô exagerando? E você, o que acha disso?
Guimarães Rosa escreveu:
Um bom Mineiro não laça boi com embira, não dá rasteira no vento, não pisa no escuro, não anda no molhado, não estica conversa com estranhos, só acredita na fumaça quando vê fogo, só arrisca quando tem certeza, não troca um pássaro na mão por dois voando.
O grifo é meu. Esse ter certeza pode ser o ponto que mantém Minas atrás de outros estados, em termos de desenvolvimento, de negócios e oportunidades. Os estrangeiros vendem muito aqui, chegam, entregam e vão embora. Mas, e os mineiros? Mineiro compra de mineiro, ou não? Ter certeza é o mesmo de estar pronto, preparado, etc. Mineiro deixa paulista, carioca, catarinense, etc. experimentar um produto ou serviço para ver como é que é. Se der errado ele fala com o peito estufado: Num falei! Mas quando dá certo ele vai atrás da boiada, comendo poeira! Até porque mineiro vai de vagarzinho, comendo pelas beiradas… êta sô!
Numa entrevista de TV vi um diretor do IDEC – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor dizer que a maioria das pessoas que são lesadas por promessas suspeitas ou serviços duvidosos não reclama. Isso, porque se o fizerem acreditam que serão prejudicadas duas vezes, uma por ter sido enganado e a outra por dizer que foi enganado.
Guimarães Rosa escreveu sobre isso: Ser Mineiro é não dizer o que faz, nem o que vai fazer.
Dizem por aí que mineiro chega para um curso, treinamento, palestra, etc. questionando se o palestrante, professor ou seja lá quem for conduzir os trabalhos sabe mesmo falar sobre aquele tema. A pergunta mais pensada, não necessariamente falada, pelo mineiros é: SERÁ? Será que esse curso é bom? Será isso, será aquilo? Falam ainda, à boca miúda, que quando dois mineiros fazem algum curso juntos um se apressa em dizer para o outro: Prestenção qui dispois cê aplica e eu ispio prá apricá também. No qui o outro responde: Será?
Entre os anos 70/80 havia um selo estampado nas embalagens de produtos da indústria mineira que dizia “Minas faz bem feito!”. Obviamente que era para vender a ideia de altíssima qualidade, fruto da altíssima exigência mineira. O selo desapareceu, não sei o motivo, mas, se levarmos essa crença de desconfiança ao pé da letra, pode ser que as vendas em Minas tenham caído, afinal, mineiro acredita que quando a esmola é muita o santo desconfia, o mesmo para auto-elogios como os do selo.
No que se refere ao conceito mercadológico, para mim, como profissional de consultoria empresarial e de coaching, bem como palestrante e facilitador de cursos abertos ao público, posso vangloriar-me de ter sobrevivido à exigência mineira durante os últimos 20 anos. O mesmo vale para a Asbrapa. Durante este tempo vimos empresas de treinamento, especificamente de PNL e Coaching, de outros estados aportarem por aqui, ficarem um ou menos de um ano e fecharem as portas de suas unidades em Minas. Elas não aprenderam lidar com o jeito mineiro de ser e de aprender. Ou será o contrário?
Num sei não, mas qui tá isquisito, isso tá sô. Espia só, num tô querendo criá cauzu, só tô atiçando ôcê prá bistuntar um pouco sobre isso, afinal, nós mineiros precisamos conservar a hospitalidade, o zêlo com o outro, o compromisso com o resultado pretendido, a lealdade, como disse Guimarães Rosa: Ser mineiro é ter simplicidade e pureza, humildade e modéstia, coragem e bravura, fidalguia e elegância…
Mas, para ser mineiro evoluído, ladino propositivo, temos que abrir as montanhas e ousar mais, experimentar mais e deixar o lamento para epitáfios de outras certanias. Amém!
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fonte:http://www.administradores.com.br/informe-se/artigos/o-jeito-mineiro-de-ser-e-de-aprender/60565/
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As duas faces do tempo: a do que você perde e a do que você ganha
Falta de planejamento é a principal causa de descumprimento de agendas, destaca articulista
Creio que a frase mais repetida em nosso país durante todos os dias seja “Eu não tenho tempo!”. Parte das pessoas a expressa de forma resignada lamentando tal infortúnio enquanto que a outra parcela tem procurado encontrar formas para administrar melhor as horas de seu dia, o que nem sempre tem sido suficiente para cumprir agendas cada vez mais repletas de compromissos.
Na Antiguidade os gregos também já se preocupavam com o fator tempo e, segundo eles, este era orientado pelos deuses mitológicos Cronos e Kairós. Figuras díspares e que proporcionam uma importante reflexão sobre este assunto, mesmo após muitos séculos.
Segundo o poeta grego Hesíodo, que viveu no século VIII a.C., para governar o mundo Cronos castrou o seu próprio pai e matou cinco dos seis filhos logo ao nascerem (somente Zeus sobreviveu, salvo pela mãe) por causa do medo que possuía em ser destronado. Portanto, trata do deus que quer conservar a ordem vigente pelo medo de ser privado de seu poder e também do tempo matemático-técnico e mensurável, que corre uniformemente dia após dia e pode ser bem representado pelo uso do relógio e da agenda de compromissos, que servem como instrumento de medição e controle temporal.
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| Imagem: ThinkStock |
Cronos traduz a necessidade atual do homem em mensurar os processos de trabalho, planejar suas atividades nos mínimos detalhes e calcular todas as possibilidades para cumprir seus propósitos. O problema é que, pressionadas por planejamentos e agendas muitas vezes inexequíveis, cada vez mais pessoas têm se tornado escravas das inúmeras metas que estabeleceram para si ou suas organizações.
É claro que o homem necessita orientar produtivamente seu tempo, afinal de contas o planejamento e a organização são imprescindíveis para qualquer tipo de desenvolvimento humano ou social. A disfunção reside no fato de orientar tudo por meio do fator Cronos, o que tem sido comum para muita gente e provocado desgastes desnecessários.
Por seu turno, Kairós, filho de Zeus e, portanto, neto de Cronos, foi um semideus que jamais teve por objetivo dominar o mundo e, consequentemente, não se preocupou em ocupar o lugar de seu pai. Geralmente, retratado como adolescente, espelha o vigor e a ousadia do jovem que decide e age, por vezes intempestivamente.
A percepção do tempo sob a dimensão Kairós revela possibilidades que só podem – e devem – ser aproveitadas no momento presente (carpe diem, para os romanos) como ocorre quando você aprecia uma sobremesa deliciosa, avista uma belíssima paisagem ao entardecer, sente o cheirinho que exala de uma árvore após rápida chuva ou celebra uma conquista pessoal. Desta forma, o Kairós trata do viver qualitativo do tempo que possibilita a visualização de oportunidades, diferentemente do Cronos que exalta o aspecto quantitativo presente nele.
Segundo o monge beneditino alemão Anselm Grün, “ambos os deuses, Cronos e Kairós, no relacionamento correto, pertencem a uma vida plena”, pois sem regulamentações temporais não existiria nenhuma cultura, mas estas precisam conviver numa sadia relação de tensão com a vida no instante que experimenta, usufrui e reconhece ocasiões únicas.
A grande dificuldade do homem moderno não é administrar o seu tempo, mas sim as prioridades que estabelece para si. Quanto menor o número de coisas que você quer alcançar mais fácil também é equilibrar as duas dimensões, ao passo que deixar-se seduzir por inúmeras e atraentes prioridades simultâneas abre as portas para que o fator Cronos tome conta da sua vida.
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Wellington Moreira – Palestrante e consultor empresarial wellington@caputconsultoria.com.br
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